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uando Charli xcx abriu sua nova era decretando que a pista de dança estava morta, a mensagem parecia bastante clara: não adiantava esperar um segundo brat. Depois de transformar o verde-limão em fenômeno cultural e conquistar um público muito maior do que aquele que acompanhava sua carreira anteriormente, a britânica escolheu sair da festa antes que ela se tornasse uma prisão.
Lançado nesta sexta-feira (24), Music, Fashion, Film reúne 11 músicas em pouco mais de 30 minutos. Curitnho, o sétimo álbum de estúdio de Charli explora guitarras distorcidas e uma produção que mistura rock alternativo e as experimentações que sempre fizeram parte de seu trabalho. A.G. Cook e Finn Keane, também conhecido como Easyfun, estão entre os principais colaboradores do projeto.
O que existe depois de Brat?
A resposta começa em Rock Music, primeiro single da era. Ele não está entre os momentos mais fortes do disco, mas funciona como uma ótima introdução que comunica que Charli já está pensando no próximo passo. Também funciona como um convite para quem a conheceu por meio de brat.
Para os fãs que acompanharam projetos como Pop 2, Charli e how i’m feeling now, porém, a mudança não chega a ser uma surpresa. Reinventar a embalagem sem abandonar completamente sua identidade é uma das principais características da artista.
Mesmo cercada por guitarras, Charli continua interessada em repetições hipnóticas, melodias quase infantis, distorções digitais e letras que parecem ter sido escritas antes que ela pudesse repensar ou esconder o que estava sentindo.
Essa crueza aparece muito bem em SS26, uma das melhores faixas do projeto. Usando o universo das coleções de moda como metáfora, Charli imagina uma passarela que conduz diretamente ao fim do mundo. Entre referências a pedidos públicos de desculpas, construção de imagem e autopromoção, a música expõe o vazio de uma cultura pop que tenta transformar até o colapso em conteúdo.
A provocação fica ainda mais forte quando o próprio título do álbum é colocado em dúvida. Música, moda e cinema podem produzir beleza, distração e significado, mas não são capazes de salvar ninguém. Charli trabalha dentro dessas três indústrias enquanto reconhece os limites de todas elas.
Charli xcx diante das câmeras
Se brat mergulhava em inseguranças relacionadas a amizade, competitividade e desejo, o novo disco concentra boa parte de suas crises na fama e na criação artística. Camera é o ponto em que esses assuntos se encontram com mais força.
Na música, Charli questiona seu desejo de atuar e o medo de mudar de carreira enquanto envelhece diante do público. A câmera surge ao mesmo tempo como uma ameaça e uma possibilidade de liberdade como uma maneira de escapar, ainda que temporariamente, dela mesma.
2007 olha para o caminho contrário. Ela retorna ao quarto da adolescência, quando ser uma estrela pop ainda era uma fantasia particular. A faixa dura pouco e funciona quase como um interlúdio, mas sua produção cheia de pequenos detalhes faz com que pareça um fragmento de memória.
Yeah segue uma lógica parecida. Com poucas palavras, guitarra viciante e ritmo crescente, a música se sustenta mais pela sensação do que por uma narrativa. Parece a trilha sonora de uma noite de filme coming of age, daquele momento em que os personagens correm sem saber exatamente para onde estão indo.
Felicidade também pode provocar medo
O centro emocional de Music, Fashion, Film está em I’m Afraid. A canção apresenta Charli no papel de esposa, mas sem qualquer certeza de que está preparada para ocupá-lo. Depois de se casar com George Daniel, baterista do The 1975, em 2025, ela transforma a felicidade encontrada no relacionamento em uma nova fonte de ansiedade.
A estabilidade não apaga suas inseguranças, apenas oferece algo que ela passa a ter medo de perder. A artista se descreve como adulta e criança, esposa e pessoa destruída, alguém profundamente apaixonada e, ao mesmo tempo, convencida de que pode estragar tudo.
Persona também se destaca pela complexidade de sua letra. A faixa observa alguém que esconde o sofrimento atrás de confiança, ironia e ego, mas gradualmente revela que Charli reconhece essa atuação porque faz a mesma coisa. As duas pessoas se enxergam como espelhos, percebem as mentiras uma da outra, mas não conseguem abandonar os próprios personagens.
Já Wink Wink escolhe o humor. Ao prometer que não é mais uma “garota má”, Charli ironiza a expectativa de que artistas precisam amadurecer de maneira respeitável e facilmente reconhecível. Cada tentativa de parecer comportada vem acompanhada de uma piscadinha.
Nem todas as ideias chegam ao mesmo lugar
O formato curto ajuda Music, Fashion, Film a manter o ritmo, mas também faz algumas faixas parecerem menos desenvolvidas. Card Declined, por exemplo, possui uma produção empolgante, mas sua crítica ao consumo como forma de comprar uma identidade é literal demais quando comparada às ambiguidades encontradas em SS26 e Persona.
Magic Metal Montana é uma declaração carinhosa para A.G. Cook, produtor e parceiro criativo de Charli há anos. A letra é tão específica que pode parecer deslocada dentro do álbum, mas a produção impede que a faixa se torne apenas uma homenagem particular.
Nada dura para sempre
A conclusão chega com No One Lasts Forever, única faixa com uma participação creditada. O cineasta David Cronenberg aparece em um longo trecho falado sobre arte, morte, esquecimento e a impossibilidade de o artista experimentar a própria imortalidade.
Antes dele, Charli descreve a experiência de estar no auge: todos conhecem seu nome, as festas parecem melhores e qualquer ambiente pode produzir a sensação de que aquele momento nunca terminará. Mas ela sabe que terminará. A fama, a juventude, a arte e as pessoas desaparecerão. Reconhecer que nada é permanente permite que Charli abandone a obrigação de repetir brat. Ela não precisa preservar para sempre a versão de si mesma que conquistou o mundo em 2024.
Quem chegou até Charli pela pista de dança talvez precise dar uma chance às guitarras. Quem já conhecia seu desejo constante de mudança encontrará a mesma artista inquieta, contraditória e impossível de manter dentro de uma caixa por muito tempo.
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