ONG ligada a filme sobre Bolsonaro inflou receita em 170 vezes

Repasses de R$ 52 milhões para terceiros não foram detalhados em balanços oficiais/ Foto: Reprodução

O Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização não governamental (ONG) sob investigação por supostos desvios em um contrato milionário firmado com a Prefeitura de São Paulo, registrou uma evolução financeira atípica em suas contas. Demonstrativos contábeis obtidos pelo portal Metrópoles revelam que o faturamento da entidade saltou cerca de 170 vezes em um intervalo de apenas três anos, coincidindo com o período em que passou a prestar serviços para a administração paulistana.

A receita bruta declarada pela associação civil, que encerrou o ano fiscal de 2022 em R$ 306 mil, atingiu o patamar de R$ 54 milhões no fechamento do balanço de 2025. Desse montante recente, R$ 51,9 milhões foram classificados sob a rubrica de “parcerias e subvenções governamentais”, complementados por R$ 2 milhões em aportes voltados à educação e R$ 2,6 milhões em contratos de prestação de serviços.

A entidade tem como principal representante Karina Ferreira da Gama, que também figura como sócia da Go Up Entertainment. A produtora é a responsável pelo desenvolvimento de Dark Horse, obra audiovisual que retrata a trajetória biográfica do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

O Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), da Polícia Civil do Estado de São Paulo, apura a hipótese de que parcelas significativas das verbas públicas municipais tenham sido ilegalmente trianguladas para subsidiar os custos de produção do filme. Em 1º de junho, tanto a sede da ONG quanto as dependências da produtora foram alvos de mandados de busca e apreensão.

A abertura dos dados contábeis ocorreu após o ICB submeter a documentação ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, em fevereiro deste ano, com o objetivo de pleitear a titulação de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). A qualificação facilita a dispensa de licitações e a captação direta de emendas e verbas estatais. O requerimento, contudo, foi travado após auditoria técnica apontar desconformidades no estatuto da instituição.

A análise dos fluxos de saída da ONG expôs fragilidades nos mecanismos de transparência. No balanço de 2022, quase a totalidade do orçamento (R$ 299 mil) foi destinada genericamente ao pagamento de “serviços de terceiros”, sem discriminação dos prestadores. A prática repetiu-se no demonstrativo de 2025, no qual R$ 52 milhões foram alocados para a mesma finalidade opaca.

O restante das despesas administrativas declaradas em 2025 estruturou-se da seguinte forma:

  • Despesas com pessoal: R$ 452 mil

  • Aluguéis de imóveis: R$ 224 mil

  • Encargos sociais sobre folha: R$ 85 mil

  • Despesas bancárias e taxas: R$ 88,7 mil

  • Transporte e logística de veículos: R$ 70 mil

  • Manutenção de projetos e outras despesas: R$ 72 mil

  • Serviços de terceiros (Pessoa Jurídica): R$ 52 mil

  • Comunicação, tributos e depreciações: R$ 36,3 mil

No âmbito administrativo, parecer emitido em 29 de março por analistas ministeriais fixou o prazo de 60 dias para que a diretoria da ONG alterasse cláusulas que previam privilégios, bens e serviços exclusivos aos seus próprios associados, conduta expressamente vedada pela Lei das Oscips (Lei nº 9.790/99). O período de adequação expirou em 29 de maio sem que novas modificações estatutárias fossem averbadas pela defesa da instituição.

O contrato original que gerou a intervenção policial soma R$ 108 milhões, assinado em 2024, e previa a instalação e manutenção técnica de 5.000 pontos de conexão de wi-fi gratuito em distritos periféricos da capital paulista. Para executar o escopo do projeto, o ICB realizou a subcontratação em cadeia de múltiplas firmas de tecnologia.

A suspeita de desvios estruturados ganhou robustez após o cruzamento de notas fiscais emitidas para comprovar os serviços. Os auditores detectaram, por exemplo, a emissão de um documento fiscal de R$ 1,2 milhão faturado pela ONG contra si mesma, além de uma nota de R$ 2 milhões cancelada logo após o faturamento.

“Os fatos investigados envolvem, em tese, possíveis crimes licitatórios, lavagem de capitais, organização crescida [organização criminosa] e eventual desvio de verbas públicas”, apontou a promotora de Justiça Marina de Azevedo Pedersolli, ao requerer a quebra de sigilo financeiro e o envio de relatórios de inteligência do Coaf.

A defesa da Go Up Entertainment rechaça o direcionamento de dinheiro público da capital paulista para as filmagens e anexou ao inquérito — que tramita sob segredo de Justiça — uma auditoria contábil privada. O documento sustenta que o custo total de Dark Horse atinge R$ 75 milhões, divididos entre R$ 54,2 milhões despendidos em filmagens nos Estados Unidos e R$ 20,9 milhões em solo brasileiro.

Contudo, interceptações e registros colhidos pelas autoridades indicam tratativas complexas envolvendo fluxos financeiros internacionais para cobrir a produção. Diálogos interceptados do operador financeiro Nelson Vorcaro com familiares e empresários debatiam cronogramas de depósitos que somavam US$ 24 milhões (equivalente a R$ 134 milhões).

O caso ganha contornos de pressão política em arquivos de áudio remetidos pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a Vorcaro. Nas mensagens, o parlamentar manifestava preocupação com a inadimplência de parcelas do patrocínio do Banco Master direcionadas ao projeto cinematográfico. O contato ocorreu em 16 de novembro, véspera da prisão preventiva de Vorcaro na Operação Compliance Zero, que apura fraudes bilionárias de sua instituição financeira no mercado de capitais.

Fhagner Soares, ContilNet

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