Como os presidenciáveis pretendem “usar” a Copa do Mundo nas campanhas

Arte/Metrópoles

De quatro em quatro anos, a população brasileira acompanha dois eventos distintos, mas altamente mobilizadores: a Copa do Mundo e as eleições presidenciais. Em 2026, com um cenário ainda mais polarizado e com os símbolos da Seleção Brasileira associados ao bolsonarismo, pré-candidatos ao Planalto já se movimentam para incorporar o tema às estratégias de pré-campanha.

O Metrópoles procurou as equipes dos cinco presidenciáveis com mais de 1% das intenções de voto: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT); o senador Flávio Bolsonaro (PL); o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo); o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD); e o fundador do Movimento Brasil Livre (MBL), Renan Santos (Missão).

Na pré-campanha de Lula, o torneio já passou a ser explorado nas redes sociais. O PT criou o perfil “Lula pelo Brasil”, voltado à mobilização digital no período pré-eleitoral. A página aproveitou a abertura da Copa, na última quinta-feira (11/6), para lançar o primeiro jingle da campanha à reeleição.

Com o lema “Lula joga pelo Brasil”, a música usa a Copa como pano de fundo para associar futebol à identidade e à soberania nacional. O clipe destaca bandeiras do governo, como o fim da escala 6×1, e programas como CNH do Brasil, Desenrola Brasil, Gás do Povo e Agora Tem Especialistas.

O Pix também aparece como elemento central. Em um trecho, uma mulher realiza uma transferência pelo sistema, que tem sido alvo de críticas do governo de Donald Trump. Após relatório do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que questiona o modelo brasileiro de pagamentos digitais, o tema passou a integrar a estratégia do governo de reforçar a defesa da soberania nacional.

A aposta da pré-campanha é reforçar o discurso em defesa dos interesses nacionais e manter a ofensiva contra o senador Flávio Bolsonaro, principal adversário de Lula até o momento. A estratégia inclui continuar associando-o ao escândalo envolvendo o Banco Master.

Integrantes do PT avaliam que a ligação entre Flávio e o empresário Daniel Vorcaro afetou a credibilidade do senador. A pesquisa Genial/Quaest divulgada na quarta-feira (10/6) indica que Lula (44%) abriu seis pontos de vantagem sobre Flávio (38%) no segundo turno. No levantamento anterior, o senador aparecia à frente do petista dentro da margem de erro.

“Está evidente a polarização entre dois projetos. O de Lula: que joga pelo Brasil, torce pelo Brasil, defende o Brasil. E o projeto representado por Flávio Bolsonaro, cada dia mais enrolado com o escândalo Master, e que coloca os interesses da família acima dos interesses do Brasil”, avalia o secretário nacional de Comunicação do PT, Éden Valadares.

Segundo ele, em um contexto de Copa do Mundo — que desperta sentimento de pertencimento e orgulho nacional —, a campanha tende a explorar o contraste entre os dois projetos.

Como mostrou o Metrópoles, na coluna de Milena Teixeira, Lula tem incentivado ministros a usarem a camisa da Seleção Brasileira ou roupas verde e amarelas durante os jogos. O presidente já defendeu que essas cores deixem de ser associadas exclusivamente ao bolsonarismo e voltem a ser apropriadas por outros campos políticos.

A agenda presidencial deve ser ajustada durante o torneio. Segundo auxiliares, compromissos devem ser evitados nos horários dos jogos da Seleção Brasileira.

Flávio herda o verde e amarelo

As cores verde e amarelo e a camisa da Seleção Brasileira vêm sendo associadas ao bolsonarismo desde o início do movimento. A pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro ao Planalto, portanto, quer manter a exploração desses símbolos, ainda mais em um contexto de Copa do Mundo.

Em resposta ao jingle “Lula joga pelo Brasil”, Flávio publicou, na sexta-feira (12/6), um novo vídeo de pré-campanha com o mesmo jingle “Vem com fé”, lançado no início do mês, desta vez incorporando referências à Copa.

No material, ele afirma que “Lula e o PT usam o verde e amarelo apenas em períodos de eleição e Copa do Mundo”. “A gente veste essa camisa a vida inteira”, diz o vídeo.

O clipe reúne imagens de manifestações bolsonaristas marcadas pelo uso da camisa da Seleção, além de registros de agendas públicas em que Flávio aparece com as cores nacionais, muitas delas ao lado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

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Primeiro turno

De acordo com o levantamento mais recente da Genial/Quaest, o cenário mais provável de 1º turno é:

  • Lula: 39%
  • Flávio Bolsonaro: 29%
  • Ronaldo Caiado: 3%
  • Renan Santos: 3%
  • Aécio Neves (PSDB): 2%
  • Romeu Zema: 2%
  • Augusto Cury (Avante): 1%
  • Joaquim Barbosa (DC): 1%
  • Samara Martins (UP): 1%
  • Cabo Daciolo (Mobiliza): 0%
  • Edmilson Costa (PCB): 0%
  • Heró Bezerra (PRTB): 0%
  • Indecisos: 10%
  • Branco, nulo ou não irão votar: 9%

Dos entrevistados, 63% dizem que sua escolha de voto é definitiva e 36% admitem que podem mudar.


Caiado, Renan e Zema

O ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que aparece com 3% das intenções de voto no primeiro turno segundo a Genial/Quaest, não pretende explorar o tema da Copa.

Segunda a equipe do presidenciável, “não está em nossa pauta este debate de certa forma oportunista”. “Patriotismo é curar Brasil que está doente com segurança, saúde, dívidas. Curado, o povo terá mais orgulho de seu país”, diz o posicionamento enviado ao Metrópoles.

A assessoria informa que Caiado manterá a agenda de viagens e compromissos políticos normalmente, avançando na pré-campanha até o início oficial do período eleitoral, em agosto, quando a Copa já terá terminado.

Até o momento, suas redes sociais registram apenas uma publicação relacionada ao tema. Nela, o pré-candidato aparece, com uso de inteligência artificial, beijando a taça da Copa oito vezes — em referência aos mandatos à frente do governo de Goiás.

O líder do MBL, Renan Santos, adota postura mais cautelosa em relação ao uso de referências à Seleção. Até a publicação desta reportagem, ele havia feito duas publicações sobre o tema. Na mais recente, também direciona críticas ao presidente Lula, afirmando que o petista “dá azar” à Seleção, já que o último título mundial do Brasil foi em 2002, antes de sua primeira eleição.

Renan também critica o jingle “Lula joga pelo Brasil”, dizendo que a camisa da Seleção era vista com rejeição por parte do eleitorado petista e que, com a Copa, o partido tenta se reapropriar dos símbolos nacionais. Segundo ele, Lula busca vincular sua imagem à ideia de brasilidade, embora, na sua avaliação, não represente esses valores.

De acordo com a Genial/Quaest, o pré-candidato do partido Missão apresentou o melhor desempenho entre nomes da chamada “terceira via” em um eventual segundo turno contra Lula. Ele passou de 28% em maio para 31%, enquanto o presidente manteve 45%.

Já o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), com 2% das intenções de voto, deve abordar o tema da Copa “com moderação”, segundo sua equipe. No sábado (13/6), data de estreia da Seleção Brasileira, Zema publicou um vídeo vestindo a camisa da equipe e criticando a gestão de Lula. Ele exaltou características do povo brasileiro e afirmou que “chegou a hora de libertar o Brasil que trabalha”.

Em outra publicação, também ancorada no contexto do torneio, Zema comparou sua trajetória à de Lula, afirmando que o petista foi o “primeiro presidente ex-presidiário do Brasil” e que ele próprio pode ser o “primeiro presidente empreendedor”. O conteúdo faz ainda uma associação com gols de Copas anteriores envolvendo México e África do Sul.

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