A culpa é do sistema — e o sistema somos nós

Foto: Sérgio Vale/ac24horas

Vivemos uma contradição curiosa. Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão dispostos a acreditar que os problemas da sociedade pertencem sempre a outra pessoa.

Quando algo não funciona, apontamos para o “sistema”. A culpa é do governo, dos políticos, das empresas ou das instituições. Como se existisse uma força abstrata, distante de nós, responsável por determinar os rumos da vida coletiva.

Mas existe uma pergunta que raramente fazemos: quem forma o sistema?

Nenhum sistema existe sem pessoas. Não há Estado sem cidadãos. Não há mercado sem consumidores e empreendedores. Não há sociedade sem indivíduos. Quando tratamos o sistema como algo externo, esquecemos que ele é, em grande medida, o reflexo das nossas escolhas, dos nossos valores, das nossas atitudes e das nossas omissões.

José Ortega y Gasset escreveu: “Eu sou eu e minhas circunstâncias”. O que muitas vezes ignoramos é que essas circunstâncias são formadas por outras pessoas. Ninguém nasceu sozinho, cresce sozinho ou prospera sozinho. A vida humana é, por natureza, uma experiência social.

Apesar disso, desenvolvemos o hábito de terceirizar responsabilidades. A educação é problema do governo. A segurança é problema do governo. A formação dos jovens é problema do governo. E, pouco a pouco, deixamos de reconhecer nossa participação na construção da realidade que nos cerca.

Essa mentalidade produz uma sociedade de espectadores. Pessoas que observam, criticam e reclamam, mas que raramente se enxergam como protagonistas das mudanças que desejam.

O Estado é importante, mas não é uma entidade sobrenatural. Ele é formado por pessoas. Esperar que seja melhor do que os valores praticados pelos próprios cidadãos é esperar que a consequência seja superior à causa.

Talvez a pergunta mais importante não seja “quem vai resolver?”, mas sim “qual é a minha parte na solução?”.

Porque a verdade é simples e desconfortável: o sistema não é uma força distante. O sistema somos nós. E enquanto continuarmos transferindo aos outros a responsabilidade pelo que é coletivo, continuaremos produzindo exatamente a sociedade da qual reclamamos.

Marcello Moura
Empresário, presidente do CDL Rio Branco e líder do Movimento Cidadania Empreendedora.
*Artigo inspirado nas reflexões de Fernando Alves apresentadas na obra O Valor da Vida no Trabalho.

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