Sob o barulho constante de tratores e britadeiras, famílias palestinas em Jerusalém Oriental vivem o drama de destruir com as próprias mãos as casas onde nasceram, cresceram e criaram filhos. No bairro de al-Bustan, moradores relatam que foram colocados diante de uma escolha devastadora: demolir os imóveis por conta própria ou pagar ao governo israelense cerca de R$ 485 mil para que a destruição seja feita pelas autoridades.
Segundo o Época Negócios, a área dará lugar ao “Kings Garden” — ou Jardim do Rei —, um parque temático bíblico idealizado por Israel e inspirado em narrativas ligadas ao Rei Salomão. O projeto prevê a expansão de um complexo arqueológico voltado à valorização da herança judaica de Jerusalém, em uma região historicamente habitada por palestinos.
Nas últimas semanas, o cenário em al-Bustan passou a ser marcado por casas reduzidas a escombros, famílias desalojadas e moradores tentando salvar parte da memória antes da chegada das máquinas.
“Isso é algo amargo”, desabafou Jalal al-Tawil ao acompanhar a demolição da casa construída por seu pai no terreno dos avós. Segundo ele, a prefeitura de Jerusalém cobraria cerca de 280 mil shekels — aproximadamente R$ 485 mil — para executar a demolição. Diante do valor, optou por contratar um trator por conta própria.
“Foi como escolher entre suicídio e assassinato”, afirmou.
Mais de 57 casas já foram demolidas nos últimos dois anos em al-Bustan, distrito localizado em Silwan, ao sul da Cidade Velha de Jerusalém. Outras residências ainda aguardam ordens de destruição.
Organizações de direitos humanos e pesquisadores israelenses acusam o projeto de promover o apagamento gradual da presença palestina na região. Para críticos, o parque cria uma narrativa histórica exclusiva sobre Jerusalém, ignorando o caráter multicultural e multiétnico da cidade.
Enquanto isso, famílias vivem sob ameaça constante de despejo. Mohammad Qwaider, de 60 anos, demoliu recentemente a própria casa onde viveu por mais de meio século. Mesmo assim, recebeu aviso de que as máquinas podem voltar para destruir o restante da propriedade.
“Se demolirem nossa casa, vamos montar uma tenda. Não sairemos daqui”, disse.
A história de Yusra Qwaider, mãe de Mohammad, resume décadas de deslocamento palestino. Aos 97 anos, ela afirma já ter sido expulsa de diferentes regiões desde 1948, período conhecido pelos palestinos como Nakba, quando centenas de milhares de famílias deixaram suas terras após a criação do Estado de Israel.
“Daqui, não vamos embora”, declarou.
A prefeitura de Jerusalém sustenta que as construções em al-Bustan foram erguidas ilegalmente e afirma que o parque será criado “para benefício de todos os moradores da cidade”. Palestinos, porém, denunciam dificuldades históricas para obter licenças de construção em Jerusalém Oriental, enquanto assentamentos israelenses continuam avançando na região.
Com informações do Época Negócios
Anne




