Até aqui, já temos um ambiente que dificulta a elaboração de conflitos. Mas há um movimento mais recente, que complica ainda mais esse quadro.
O Acre está se tornando, cada vez mais, uma sociedade mais individualista e mais competitiva. A lógica do “se vire”, do “o que vale é vencer”, do “se destaque” está aí, cada vez mais presente. Só que isso vem sem lastro, sem meios de amortecimento.
Cobra-se afirmação individual, a criação de “vencedores”, mas, não são oferecidos meios reais para isso. Ao mesmo tempo, os vínculos coletivos – aqueles que organizavam pertencimento, identidade, apoio, vão se enfraquecendo. O resultado é uma combinação ruim: mais cobrança, menos suporte.
E isso gera um tipo de frustração que não aparece facilmente. Não é a frustração explícita. É uma sensação difusa de inadequação, de não lugar, de invisibilidade.
Numa sociedade assim, “ser visto” passa a ter um valor enorme. Aparecer, ser reconhecido, ter algum tipo de destaque. Na maior parte do tempo, isso se resolve com coisas banais. Em situações extremas, podem assumir outras formas.
Some-se a isso o ambiente digital com suas bolhas, sua repetição de conteúdo, sua capacidade de reforçar emoções e simplificar o mundo. E aí, temos um cenário em que a capacidade de refletir diminui, e a de reagir aumenta.
Nada disso permite dizer, com precisão, por que aquele adolescente fez o que fez com seus colegas e aquelas dedicadas trabalhadoras escolares. Mas permite dizer outra coisa, talvez igualmente importante: esse tipo de episódio não surge no vazio.
Ele surge em um ambiente que, pouco a pouco, vai perdendo capacidade de integrar, de acolher, de dar sentido e de impor limite. O adolescente não veio de fora. Ele é produto daqui.
E é aí que a análise deixa de ser confortável.
O que aconteceu no São José não é só um problema de segurança. Não é só um desvio individual. É um sinal de que alguma coisa no nosso ambiente social não está funcionando como deveria.
Um ambiente mais competitivo, mais individualista, com menos pertencimento estruturado, mais informação e menos compreensão, mais visibilidade e menos sentido. De tudo isso, a pergunta, então, não é só porque isso aconteceu.
A pergunta é se a gente vai tratar isso como exceção ou se vai ter disposição para encarar o que, no nosso próprio modo de vida, torna esse tipo de coisa cada vez menos improvável.
Irailton Lima



