Um novo documento do Cenipa aponta fatores que podem ter contribuído para a queda do avião da Voepass, em Vinhedo (SP), em 2024. A investigação cita falhas operacionais e de segurança, enquanto os órgãos envolvidos se manifestaram sobre o caso.
Um novo documento do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) apontou uma série de erros que teriam contribuído para o acidente com o avião da Voepass, em agosto de 2024. Segundo trechos do relatório divulgados pela coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, nesta quarta-feira (8), a distração dos pilotos, a segurança frágil da aeronave e uma falha da Anac teriam contribuído para a queda do avião.
De acordo com o relatório, houve distração dos pilotos durante parte significativa do voo, além de falhas na coordenação da cabine durante a emergência provocada pelo acúmulo de gelo nas asas. Um dos comandantes ainda estaria enfrentando problemas pessoais que teriam afetado seu estado emocional.
“Durante uma parcela significativa do voo, os pilotos permaneceram envolvidos em conversas informais não relacionadas à condução técnica e operacional da aeronave, o que reduziu o foco da atenção da tripulação tanto no monitoramento do ambiente externo, caracterizado pela presença de condições favoráveis à formação de gelo severo, quanto na observação das indicações e alertas acionados no cockpit [cabine do avião]”, diz o texto. O documento acrescenta que “esse estado de distração favoreceu o surgimento da ‘cegueira por desatenção’ e da ‘surdez por desatenção’”.
O relatório também aponta problemas estruturais na cultura de segurança da Voepass. Segundo o Cenipa, a empresa convivia com uma normalização de desvios operacionais e com a banalização dos alertas emitidos pelas aeronaves. Ainda de acordo com a investigação, pilotos e técnicos já tinham conhecimento de uma falha no sistema de degelo antes da decolagem, mas decidiram manter o voo. Para os investigadores, essa decisão “evidenciou uma postura caracterizada pelo desrespeito aos aspectos e procedimentos operacionais aplicáveis, contribuindo para a exposição da aeronave a um cenário de alto risco”.
Outro ponto destacado é que registros de falhas apresentados em voos anteriores não foram formalizados nos diários de bordo. Com isso, a empresa deixou de adotar medidas como manutenção corretiva, substituição da aeronave ou alteração da rota. O documento também sugere que o alerta emitido pela aeronave poderia ter sido mais incisivo. Para os investigadores, caso o aviso tivesse classificação de nível “WARNING” (ATENÇÃO), a tripulação poderia ter percebido a gravidade da situação mais rapidamente e reagido de forma diferente.
A investigação ainda atribui parte da responsabilidade à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Segundo a minuta, auditorias e inspeções realizadas antes do acidente identificaram diversos problemas técnicos na Voepass. Apesar disso, o Cenipa afirma que esses sinais não foram suficientes para orientar decisões que reduzissem os riscos operacionais.
Órgãos se manifestam
Após a divulgação dos trechos do relatório, a Anac, o Cenipa e a Voepass se manifestaram. A Anac afirmou que “não teve acesso ao relatório do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aéreos – Cenipa e, portanto, não pode comentar o seu teor”. “A reportagem fala em minuta do relatório. A Anac somente irá se posicionar quando houver o relatório final, oficialmente enviado à Agência”, completou.
Já o Cenipa afirmou: “A Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA), informa que a investigação da ocorrência aeronáutica envolvendo a aeronave de matrícula PS-VPB, registrada em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo (SP), permanece em andamento e encontra-se na fase de revisão final, em conformidade com os protocolos estabelecidos pelo Anexo 13 à Convenção sobre Aviação Civil Internacional. O Cenipa reitera que somente se pronuncia oficialmente sobre os resultados da investigação por meio da publicação do relatório final, que será disponibilizado ao público após a conclusão dos trabalhos”.

Enquanto isso, a assessoria da Voepass disse que a empresa “não se pronunciará antes da conclusão das investigações e segue colaborando com as autoridades públicas de forma transparente e diligente”.
O acidente
O avião com 62 pessoas a bordo, sendo 58 passageiros e 4 tripulantes, caiu em um condomínio no bairro Capela, em Vinhedo, no interior de São Paulo. O acidente envolveu um bimotor de passageiros, modelo ATR-72, que havia decolado de Cascavel (PR) com destino a Guarulhos, na Grande São Paulo. Todas as vítimas foram retiradas dos escombros e levados para o Instituto Médico Legal paulista. Relembre o caso, clicando aqui.
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Marcelle Souza




