Sete dias após o ataque que chocou o Acre e matou duas servidoras do Instituto São José, em Rio Branco, a missa celebrada na Catedral Nossa Senhora de Nazaré, na noite desta segunda-feira (11), transformou-se em um chamado coletivo por reflexão, acolhimento e combate à violência nas escolas.
Durante a homilia da missa de sétimo dia de Raquel Sales Feitosa e Alzenir Pereira da Silva, o padre Jorge Luis Herco Figueroa, pároco da Igreja Santa Inês, afirmou que o atentado não pode ser tratado como um episódio isolado e defendeu uma reflexão profunda sobre o ambiente em que crianças e adolescentes estão crescendo.
“O que aconteceu não é um fato isolado. O que aconteceu deve convidar toda a sociedade a refletir sobre a forma como estamos vivendo e sobre a maneira como nossas crianças estão crescendo”, declarou o sacerdote diante de uma catedral ocupada por familiares, estudantes, professores, funcionários da escola e moradores da capital acreana.
A celebração ocorreu exatamente há seis dias do atentado registrado no Instituto São José, no dia 5 de maio, quando um adolescente de 13 anos entrou armado na instituição e efetuou disparos dentro da escola. Raquel Sales Feitosa, de 36 anos, e Alzenir Pereira da Silva, de 53 anos, morreram após tentarem conter o adolescente e proteger estudantes e funcionários. Outras duas pessoas ficaram feridas, incluindo uma estudante.
Ao longo da celebração, o padre destacou que a dor provocada pela tragédia ainda permanece viva na comunidade escolar e nas famílias das vítimas. “São sete dias tentando entender o que aconteceu naquele 5 de maio. Ainda há dor, tristeza e sofrimento. As palavras sobram, mas a dor permanece no coração das famílias”, afirmou.
Em tom emocionado, Jorge Luis lembrou o trauma vivido pelos estudantes que precisaram se esconder dentro da própria escola para escapar da violência. “Temos que consolar os professores, os alunos que ficaram chocados e assustados. Eles se esconderam em um lugar que deveria servir para educar e proteger”, disse.
O sacerdote também afirmou que a violência deixou de estar restrita às ruas e passou a atingir espaços considerados sagrados, como os lares e as escolas. “A violência tomou conta das ruas, dos lares e penetrou um lugar sagrado, que é a escola”, declarou.
Para o padre, o atentado expõe uma realidade preocupante sobre o desenvolvimento emocional e social de crianças e adolescentes em meio a uma sociedade marcada pela intolerância e pela agressividade. “Nossos adolescentes e jovens estão crescendo em um ambiente que não é bom. Vivemos numa sociedade violenta e, querendo ou não, isso afeta o ser humano”, afirmou.
Durante a homilia, Jorge Luis também exaltou a atitude das duas servidoras mortas no atentado, classificando-as como mulheres que evitaram uma tragédia ainda maior ao enfrentarem o adolescente armado. “Essas duas mulheres evitaram uma grande tragédia. Elas entregaram o próprio corpo para evitar mais mortes”, disse.
Em um dos momentos mais marcantes da celebração, o padre afirmou que o sacrifício de Raquel e Alzenir deve servir como um apelo à construção de uma cultura de paz nas escolas e na sociedade. “Elas estão dizendo para todos nós: vamos mudar essa situação de violência. Vamos trazer paz para dentro das escolas. Vamos humanizar a escola. Chega de violência”, declarou.
A missa foi organizada pelas Irmãs Servas de Maria Reparadoras e pela comunidade educativa do Instituto São José. Durante a celebração, familiares se emocionaram diante das homenagens às vítimas, enquanto fiéis lotavam os bancos da catedral em um clima de silêncio, oração e comoção coletiva.
Após o atentado, o Governo do Acre suspendeu temporariamente as aulas em todo o estado, anunciou reforço policial nas escolas e implantou protocolos emergenciais de segurança e acolhimento psicológico para estudantes e profissionais da educação.
A Polícia Civil segue investigando o caso, incluindo possíveis influências externas no planejamento do ataque e as circunstâncias que permitiram o acesso do adolescente à arma utilizada no crime.
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Whidy Melo



