Pedido de tombamento federal do Alto Santo é entregue ao IPHAN em ato histórico em Rio Branco

Foto: Sérgio Vale

O Centro de Iluminação Cristã Luz Universal Alto Santo, localizado na parte alta da cidade de Rio Branco, foi palco, na sexta-feira (8), de um ato histórico para a tradição da doutrina do Daime; a formalização do pedido de abertura do processo de tombamento e reconhecimento do Sítio Histórico do Alto Santo como Patrimônio Cultural Material do Brasil junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

O pedido foi apresentado por dona Peregrina Gomes Serra, conhecida como madrinha Peregrina, de 89 anos, viúva do fundador da doutrina, Raimundo Irineu Serra, o Mestre Irineu, e dignitária do Centro. Ela assinou o requerimento na condição de representante do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal Alto Santo, solicitando a abertura de processo administrativo de estudo, avaliação técnica e eventual tombamento do sítio, com base no artigo 216 da Constituição Federal e no Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937.

Foto: Sérgio Vale

O documento aponta que o sítio já conta com reconhecimento em âmbito municipal e estadual, mas, dada a relevância do legado do Mestre Irineu para a cultura amazônica e brasileira, justifica-se uma proteção em nível federal. O Alto Santo é descrito como território onde, a partir de 1940, Mestre Irineu fixou residência e estruturou o núcleo comunitário que deu origem à doutrina do Daime, tradição de notável repercussão histórica, social, cultural e antropológica, com alcance nacional e internacional.

O conjunto histórico do sítio inclui alguns bens principais, sendo eles o Memorial Raimundo Irineu Serra (antiga residência do fundador), a sede do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal, a casa destinada ao preparo ritual do Daime, a cacimba escavada pelo próprio Mestre Irineu, o cemitério Palmeiral, a capela do túmulo de Mestre Irineu, a casa de Leôncio Gomes da Silva (hoje transformada em memorial) e a residência da dignitária Peregrina Gomes Serra.

Foto: Sérgio Vale

Participaram do ato a superintendente do IPHAN no Acre, Antônia Damasceno Barbosa; o presidente da Fundação de Cultura Elias Mansur (FEM), Matheus Gomes; o promotor de Justiça, Alekine Lopes dos Santos; e o procurador da República, Luidgi Merlo Paiva dos Santos.

Ao receber o documento, a superintendente do IPHAN, Antônia Damasceno, destacou que o processo não ficará restrito à autarquia federal. “A proteção do patrimônio só é possível se for feita de forma conjunta, aliada aos poderes públicos e também à comunidade. O tombamento é justamente para isso, para que a gente possa proteger cada vez mais esse patrimônio”, disse ela, acrescentando que a FEM, o Ministério Público do Estado e o Ministério Público Federal são instituições parceiras no processo.

O presidente da FEM, Matheus Gomes, ressaltou o significado do local além da dimensão religiosa. “Esse é um espaço não apenas de fé, mas também um espaço de memória, é um espaço de história e de cultura”, afirmou. Ele se referiu ao Mestre Irineu como alguém que ajudou a construir a identidade do estado.

Foto: Sérgio Vale

O procurador da República Luidgi Merlo Paiva, que atua no Acre há cerca de dois anos e meio, vindo do Paraná, disse já conhecer a relevância da questão antes mesmo de chegar ao estado. “Já tinha ouvido falar de como essa questão no Acre é importante, profunda e relevante”, declarou. Ele destacou ainda a importância de preservar os aspectos materiais do legado do Mestre Irineu. “Quando se pensa no legado do Mestre Irineu, a gente pensa primeiro na doutrina dele, mas tem uma importância muito grande em preservar esse aspecto material. Gosto sempre de colocar o MPF como parceiro”, disse o procurador.

Foto: Sérgio Vale

Em discurso em nome da madrinha Peregrina, o orador Antônio Alves afirmou que a ação representa um gesto de doação ao povo brasileiro. “Madrinha Peregrina está entregando ao Estado brasileiro um tesouro. ‘Nós construímos isso aqui, pode considerar isso um patrimônio seu’, está dizendo assim ao povo brasileiro”, disse ele.

Dona Peregrina, que completa 89 anos e celebra 70 anos de casamento com o Mestre Irineu em 15 de setembro, não discursou diretamente durante a cerimônia, mas sua presença foi destacada por todos os participantes como símbolo vivo da memória e da continuidade da tradição.​​​​​​​​​​​​​​​​

Rebeca Martins

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